Celebrar dez anos de um projeto independente no Brasil é, por si só, um gesto de resistência. No caso do Ateliê Vivo, essa celebração não se dá por meio de um esperado retrospecto, mas como corpo presente, feito de tramas, ideias e gestos que seguem em movimento. A exposição Quando o gesto esquece o fim, que ocupa o espaço BANANAL ARTE, reúne criações desenvolvidas entre 2022 e 2025, um intervalo recente que condensa uma década de experimentações, trocas e modos de fazer costurados de forma coletiva.
O nome da mostra carrega uma chave importante para compreender o percurso do Ateliê Vivo. Esquecer o fim não significa ignorá-lo, mas recusar a ideia de encerramento como única direção. Ao apostar na arte como prática cotidiana, no gesto como continuidade e na moda como linguagem viva, o Ateliê desafia a lógica da obsolescência: do produto, da ideia, do corpo. Em um país rico em expressões culturais diversas, mas onde projetos artísticos enfrentam constantes desafios de financiamento, continuidade e visibilidade, insistir em existir também é uma forma de criação. Uma escolha pela beleza do processo, mesmo em meio às incertezas.
Desde sua fundação, em 2015, o Ateliê Vivo acredita em um campo expandido do fazer manual têxtil, onde ensino, prática e reflexão caminham juntos. Nas oficinas, nos encontros, nos Antimoldes, nas bibliotecas — especialmente na Biblioteca de Modelagem, que funciona como acervo, proposta estética e espaço de imaginação — o vestir é compreendido para além do manequim. A moda é pensada em relação com o tempo, com o espaço, com as mãos que costuram e com os corpos que compartilham conhecimento.
Ao longo desses dez anos, o Ateliê passou por diferentes formações e foi atravessado por muitas pessoas que deixaram suas contribuições. Sua atuação também ultrapassou fronteiras e se fez presente em projetos e diálogos internacionais, borrando limites entre países, práticas e modos de ensinar. Hoje, é conduzido por quatro mulheres que compreendem o fazer coletivo como exercício contínuo de escuta, cuidado e invenção.
Nesta mostra estão reunidos cadernos e livros de artista, objetos vestíveis, figurinos, estudos e obras têxteis. Tecidos que guardam a memória de corpos em movimento, de aulas compartilhadas, de dúvidas, descobertas e permanências. Cada peça, cada anotação, cada dobra traz consigo a marca de um processo. E é justamente o processo, mais do que o produto final, que sustenta a prática do Ateliê: um projeto que atravessou a pandemia, se reinventou e que hoje segue como espaço de criação e partilha.
De certo modo, esta exposição é também um gesto de agradecimento: ao caminho trilhado até aqui, às pessoas que fizeram parte dessa história e às que, mesmo diante dos desafios, continuam acreditando no Ateliê Vivo como espaço de formação, encontro e liberdade.
Quando o gesto esquece o fim propõe olhar para o tempo da criação como tempo estendido. Aqui, o gesto não conduz ao encerramento, mas à continuidade. A mostra convida as pessoas a perceberem as camadas do trabalho têxtil como camadas de pensamento, de história e de presença. O que se vê são fragmentos de uma prática artística que se faz no tempo, com dúvida, desejo, beleza e fé.
Fé na cultura brasileira, na arte como forma de vida e na educação como motor de transformação. Fé em tudo aquilo que permanece, mesmo quando o mundo insiste em anunciar um fim.
Texto Crítico – Hanayrá Negreiros




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